quarta-feira, fevereiro 13, 2008
triste olhar
Essa tristeza no seu olhar me encanta, diz ela. Deveria ser bom pra mim? Pensa ele. Pois é, deveria gostar de seu semblante, deve ter algo de elegante, talvez cool deva ser. Pensa ele. Pois bem. Volta embaixo do sol ao meio dia, sua maquiagem se desmancha entre o sono e a frustração. Ele deve estar acordando. Pensa ela. E ele olha a paisagem, pensando que elegante não é, porém o olhar de tristeza aceita de mal grado. Não queria não. Ter olhos assim. Nem queria tal mal sentir. Mal será? Pensa ele. É! É truncado assim o seu pensar. Mas dúvidas tem. Se teu olhar tristeza transmite. Mas se assim o faz, deve ser que tal mal lhe pertence. Mal de tristeza, de moço pouco contente. Será que assim toda noite dorme tal moço? Será que lhe diverte certos encontros? Encontros de bar? De lar? De mar? Será que sabe, afinal, se bem ou mal está? Dúvidas deve ter. Deve pensar ao tomar o seu café e o cigarro fumar, se assim quer continuar a passar. Se deve mesmo viver a esperar os seus olhos um dia virem a brilhar. Tem certas certezas acredito. Que de olhos brilhantes nunca vai ficar. Que de vida boa, já começa a desconfiar. Que de letras deve estar a cansar. Que amor, que esse tem endereço e lugar. Mas que longe permanece. Tal moço aos poucos convalesce, dança com suas fantasias. Se diverte quando só, mas triste continua a ficar. Ensaia passinhos no apertado quarto. Brinca de cientista. Lamenta a angústia de ser essa a vida. Olhos tristes? Pergunta-se o moço. Pois deveria sorrir? Insiste em perguntar-se.
segunda-feira, janeiro 28, 2008
Em busca do tabaco
Em busca do tabaco
(Trechos de uma narrativa feita em Shuimïwei, comunidade Yanomami)
Graças a Kuripowë, conhecemos o tabaco...
...
— Estou ansioso, ansioso. Sinto uma necessidade que me deixa insensível a qualquer outra sensação — afirmava a voz que se aproximava.
...
— Estou ansioso, sinto uma ansiedade tão forte — seguia Kuripowë sem se interromper.
...
— Não é minha intenção encher-lhes o saco, só me queixo por sentir-me ansioso. Estou sentindo uma necessidade de algo, só por isso espalho esta queixa por toda parte.
...
— Vá transar com as mulheres, fazer-lhes crianças. Elas foram pra lá.
...
— Por que se queixa? Está de luto? Acham-se reunidos por causa de uma morte?
— Não. Queixo-me porque algo me falta, queixo-me porque sinto uma falta muito profunda.
...
— Quem é você?
— Sou eu, e estou me lamentando. Sou eu.
— Está de luto para se lamentar desse modo?
— Não. Estou me lamentando sem razão.
— As mulheres estão por aí, transe com elas, faça-lhes crianças.
— Não, estou falando sem razão. Estou atormentado por uma necessidade — acrescentou.
Finalmente, chegou até aquele que realmente tinha saber. Também ele achava-se em cima de uma árvore.
— Qual é a razão para estar se lamentando?
— Não há uma razão precisa. Falta-me algo. Sinto uma terrível falta e carrego meu lamento. Quebre um galho, cunhado, acrescentou, quebre um galho e deixe-o cair. Estou com fome.
...
Comeu o invólucro das sementes [do fruto pahi]. Ninguém lhe prestava atenção.
— Cunhado, deixo-lhe as sementes aqui.
Urinou em cima, e depois acrescentou:
Estão aqui, cunhado. Cozinhe-as e retire-as da água ainda quentes, e ponha na boca ainda quentes.
— Sim! Mas o que estava dizendo quando chegou?
— Estava me lamentando que algo me fazia falta.
— Veja aí, está perto de você, tem uma faca de pedra no chão, sobre o cabo tem uma masca de tabaco.
...
Queria provavelmente propagar o tabaco; em todos os lugares onde cuspiu o suco da masca, cresceu um pé de tabaco. A planta se elevou imediatamente e começou a florescer, os beija-flores chegaram para sugar. Foram estas as marcas que Kuripowë deixou em seu trajeto; foi graças a ele que o tabaco se propagou.
Ayë! ayë! ayê! — foram as exclamações do herói em narração registrada na comunidade Karohi. “Foi Nosiriwë — diz essa versão — quem propagou o tabaco por toda parte. Foi Cuchicuchi quem o descobriu”.
Esta é uma tradução de AmaZone de “En busca del tabaco (II)”, In Yanomami. Los pueblos indios en sus mitos Nº 4, pp. 68-70, de Jacques Lizot, Luis Coco & Juan Finkers (Abya-Yala, 1993). O mito pertence ao conjunto compilado por Lizot.
Sobre ansiedade considerada análoga por este mito Yanomami, uma menina Plêiades do Alto Rio Negro assim se exprimiu:
“Mamãe, sofro de um certo mal, que me dá uma vontade que não sei explicar”.
“O que você sente?”
“Quando meu mal começa, é uma coceira, uma mal-estar que dói e não dói, corre-me depois pelo corpo todo e me dá uma vontade de me morder todinha, e no fim sinto que vou desmaiar e choro. Quando durmo vejo sempre do lado de minha rede uma porção de jovens bonitos que querem me beijar, querem me abraçar e eu não consigo fugir”.
“Lenda de Jurupari”, de Maximiano José Roberto/Stradelli, p. 303-304, In Makunaíma e Jurupari, Sérgio Medeiros (org.). Perspectiva, 2002. (Trad.: Aurora. F. Bernardini)
(Trechos de uma narrativa feita em Shuimïwei, comunidade Yanomami)
Graças a Kuripowë, conhecemos o tabaco...
...
— Estou ansioso, ansioso. Sinto uma necessidade que me deixa insensível a qualquer outra sensação — afirmava a voz que se aproximava.
...
— Estou ansioso, sinto uma ansiedade tão forte — seguia Kuripowë sem se interromper.
...
— Não é minha intenção encher-lhes o saco, só me queixo por sentir-me ansioso. Estou sentindo uma necessidade de algo, só por isso espalho esta queixa por toda parte.
...
— Vá transar com as mulheres, fazer-lhes crianças. Elas foram pra lá.
...
— Por que se queixa? Está de luto? Acham-se reunidos por causa de uma morte?
— Não. Queixo-me porque algo me falta, queixo-me porque sinto uma falta muito profunda.
...
— Quem é você?
— Sou eu, e estou me lamentando. Sou eu.
— Está de luto para se lamentar desse modo?
— Não. Estou me lamentando sem razão.
— As mulheres estão por aí, transe com elas, faça-lhes crianças.
— Não, estou falando sem razão. Estou atormentado por uma necessidade — acrescentou.
Finalmente, chegou até aquele que realmente tinha saber. Também ele achava-se em cima de uma árvore.
— Qual é a razão para estar se lamentando?
— Não há uma razão precisa. Falta-me algo. Sinto uma terrível falta e carrego meu lamento. Quebre um galho, cunhado, acrescentou, quebre um galho e deixe-o cair. Estou com fome.
...
Comeu o invólucro das sementes [do fruto pahi]. Ninguém lhe prestava atenção.
— Cunhado, deixo-lhe as sementes aqui.
Urinou em cima, e depois acrescentou:
Estão aqui, cunhado. Cozinhe-as e retire-as da água ainda quentes, e ponha na boca ainda quentes.
— Sim! Mas o que estava dizendo quando chegou?
— Estava me lamentando que algo me fazia falta.
— Veja aí, está perto de você, tem uma faca de pedra no chão, sobre o cabo tem uma masca de tabaco.
...
Queria provavelmente propagar o tabaco; em todos os lugares onde cuspiu o suco da masca, cresceu um pé de tabaco. A planta se elevou imediatamente e começou a florescer, os beija-flores chegaram para sugar. Foram estas as marcas que Kuripowë deixou em seu trajeto; foi graças a ele que o tabaco se propagou.
Ayë! ayë! ayê! — foram as exclamações do herói em narração registrada na comunidade Karohi. “Foi Nosiriwë — diz essa versão — quem propagou o tabaco por toda parte. Foi Cuchicuchi quem o descobriu”.
Esta é uma tradução de AmaZone de “En busca del tabaco (II)”, In Yanomami. Los pueblos indios en sus mitos Nº 4, pp. 68-70, de Jacques Lizot, Luis Coco & Juan Finkers (Abya-Yala, 1993). O mito pertence ao conjunto compilado por Lizot.
Sobre ansiedade considerada análoga por este mito Yanomami, uma menina Plêiades do Alto Rio Negro assim se exprimiu:
“Mamãe, sofro de um certo mal, que me dá uma vontade que não sei explicar”.
“O que você sente?”
“Quando meu mal começa, é uma coceira, uma mal-estar que dói e não dói, corre-me depois pelo corpo todo e me dá uma vontade de me morder todinha, e no fim sinto que vou desmaiar e choro. Quando durmo vejo sempre do lado de minha rede uma porção de jovens bonitos que querem me beijar, querem me abraçar e eu não consigo fugir”.
“Lenda de Jurupari”, de Maximiano José Roberto/Stradelli, p. 303-304, In Makunaíma e Jurupari, Sérgio Medeiros (org.). Perspectiva, 2002. (Trad.: Aurora. F. Bernardini)
sábado, agosto 25, 2007
sexta-feira, agosto 24, 2007
aquele nós.
Velas se espalham pelo cabeliasbar, é difícil abandonar o luto. A tristeza se vai e se esconde entre sorrisos e diversões, mas logo da o ar de sua graça e empurra uma lágrima sempre acompanhada de um nó na garganta. Nós estamos assim por esses dias, nós jogadores de tosco pong de tempos de rebordosa. Nós de tempos de café e marcados no caderninho do seu Heleno. Nós que planejávamos a anarquia, nós que ficamos aqui nos lendo e lendo marginais. Nós que tanto celebramos nossa hóstia cachaça, nosso pano verde na sinuca do Jota. Nós que nunca mais nos veremos todos os dias. Outros se foram pra nunca mais serem visto, para nunca mais serem esquecidos. Eu quero dizer que amo esse nós, e quando eu for quero um brinde dos amigos, um brinde de seleta, um brinde de antártica, que seja um brinde de 51 com limão. Quero uma noite de dança e birita, de promiscua alegria, quero uma mesa de tosco pong. To com uma saudade tremenda daquelas tardes de vadiagem produtiva, das garotas de Letras tão belamente desconhecidas, de sempre ver uma face amiga se aproximando, sorrindo ou reclamando daquele marxista. Ai meus queridos, quanto falta me faz esse nós.
segunda-feira, agosto 20, 2007
tosco pong
ping pong...tac ....tac......tac ...............tac... A bolinha muito leve. Ele a lança para o alto, seus olhos fixos na esferinha branca enquanto as mãos se movimentam. O corpo já sabe o tempo da bola, a força e a direção já circulam na cabeça do rapaz, mas a decisão da jogada, essa só vai ser tomada no exato momento de bater. Um rápido movimento com a raquete, ele bate raspando pra fora, a bola vai vir com muito efeito. Se nem ele ainda sabe como vai bnater, imagine se eu ia saber de que lado vem, como vem, com que força, só me resta esperar. Fixo meu olhar na raquete pra ver o exato momento que a bolinha vai ser disparada.
A bola parte, com meia força, ele bate no meu lado direito raspando a raquete pra fora o efeito produzido vai levar a bola mais pra direita ainda. É um grande saque. Eu gosto quando a bola vem na minha direita porque sou destro, se bem que quando ela vem na esquerda eu sou obrigado a defender num lance mais curto, tenho que ir ao encontro da bola logo após ela bater no meu lado da mesa o que acaba sendo bom também, porque devolve a bola bem rápido. Já no saque que eu vou defender eu tenho que esperar mais a bola, então esse vai ser um jogo de bolas longas. Um jogo com uma cara de clássicos dos anos 60, um jogo em preto e branco.
No seu último e quase único pensamento você percebe se vai ter como defender, no mesmo instante tem que decidir e escolher como vai bater. A mesa de maderite tornava o efeito da bolinha ainda maior. Estico meu braço e o corpo todo vai pra direita, rebato a bola reto na paralela mas vai pra fora. Tive que bater forte pra tentar tirar o efeito, poderia ter batido raspando pra direita também, mas nesse momento você não pode querer escolher muito, tem que pensar uma coisa e bater. Foi um grande saque.
Um a zero em um jogo que não tem um fim determinado, quando chegar um próximo jogador o placar zera. Ele saca novamente, o mesmo saque. Defendo com o mesmo movimento que ele fez, jogando a bola no canto dele, uma bola cruzada clássica, ele rebate, exatamente da mesma maneira, ta me convidando pra rebater um pouco, ta me convidando pra uma conversa, então seguramos o jogo esperando o primeiro improviso, uma hora alguém vai quebrar a seqüência e tentar marcar o ponto.
É um jogo disputado como sempre. Conhecemos bem o jogo um do outro, chega um momento que esquecemos do placar. Conforme as nossas regras se ninguém sabe o placar o jogo volta pra dois a dois, e não era nem um pouco raro esquecermos o placar. Então vamos pra dois a dois e decidimos fazer uma partida de 21. Se chegar em 20 a 20, sobe pra 22, 21 a 21 sobe pra 23...
As vezes a partida pode ser interrompida por um longo ou curto tempo. Para um cigarro. Para uma conversa. Por exemplo, você pega a bola para sacar, dae você joga ela para cima preparando o saqueci, então você acaba lembrando de algo que queria falar, então segura a bolinha e comenta. Ou então pede o isqueiro e acende um cigarro, da uns tragos, repousa o cigarro no cinzeiro ao lado da mesa e saca, a bola para e volta a apanhar o cigarro, ou pasa o cigarro pro companheiro. Lembra de uma outra coisa que queria falar...
Enfim, o jogo era só um pretesto pra uma conversa, como convidar um amigo para um café ou para uma cerveja. Ali podíamos ter planejado uma revolução, entre um saque e outro, na verdade o que faziamos ali era uma pequena revolução diária. Grandes momentos tivemos ali, grande idéias, vivemos grandes pequenas coisas ao som do tac...tac da bolinha branca.
Para um bom jogo o ideal é uma bolinha leve, uma maderite apoiada num cavalete como mesa, boas raquetes coloridas, e prestar atenção no barulho da bolinha ao bater na mesa, pode te dizer muito esse barulho, tac tac tac tac....O bom mesmo é que você jogue com grandes amigos, desses que voc~e vai lembrar pra sempre, desses que voc~e vai guardar só as boas coisas, desses que mudam o mundo todos os dias.
Queria fazer uma homenagem ao Rodrigo, grande amigo que nos deixou. Eu adorava jogar ping pong com Rodrigo um cara que vai fazer muita falta não só para a família, para os amigos mas também para o mundo, porque ele queria mudar as coisas. Perdemos uma grande pessoa, hoje rezei, coisa que a muito não fazia.
A bola parte, com meia força, ele bate no meu lado direito raspando a raquete pra fora o efeito produzido vai levar a bola mais pra direita ainda. É um grande saque. Eu gosto quando a bola vem na minha direita porque sou destro, se bem que quando ela vem na esquerda eu sou obrigado a defender num lance mais curto, tenho que ir ao encontro da bola logo após ela bater no meu lado da mesa o que acaba sendo bom também, porque devolve a bola bem rápido. Já no saque que eu vou defender eu tenho que esperar mais a bola, então esse vai ser um jogo de bolas longas. Um jogo com uma cara de clássicos dos anos 60, um jogo em preto e branco.
No seu último e quase único pensamento você percebe se vai ter como defender, no mesmo instante tem que decidir e escolher como vai bater. A mesa de maderite tornava o efeito da bolinha ainda maior. Estico meu braço e o corpo todo vai pra direita, rebato a bola reto na paralela mas vai pra fora. Tive que bater forte pra tentar tirar o efeito, poderia ter batido raspando pra direita também, mas nesse momento você não pode querer escolher muito, tem que pensar uma coisa e bater. Foi um grande saque.
Um a zero em um jogo que não tem um fim determinado, quando chegar um próximo jogador o placar zera. Ele saca novamente, o mesmo saque. Defendo com o mesmo movimento que ele fez, jogando a bola no canto dele, uma bola cruzada clássica, ele rebate, exatamente da mesma maneira, ta me convidando pra rebater um pouco, ta me convidando pra uma conversa, então seguramos o jogo esperando o primeiro improviso, uma hora alguém vai quebrar a seqüência e tentar marcar o ponto.
É um jogo disputado como sempre. Conhecemos bem o jogo um do outro, chega um momento que esquecemos do placar. Conforme as nossas regras se ninguém sabe o placar o jogo volta pra dois a dois, e não era nem um pouco raro esquecermos o placar. Então vamos pra dois a dois e decidimos fazer uma partida de 21. Se chegar em 20 a 20, sobe pra 22, 21 a 21 sobe pra 23...
As vezes a partida pode ser interrompida por um longo ou curto tempo. Para um cigarro. Para uma conversa. Por exemplo, você pega a bola para sacar, dae você joga ela para cima preparando o saqueci, então você acaba lembrando de algo que queria falar, então segura a bolinha e comenta. Ou então pede o isqueiro e acende um cigarro, da uns tragos, repousa o cigarro no cinzeiro ao lado da mesa e saca, a bola para e volta a apanhar o cigarro, ou pasa o cigarro pro companheiro. Lembra de uma outra coisa que queria falar...
Enfim, o jogo era só um pretesto pra uma conversa, como convidar um amigo para um café ou para uma cerveja. Ali podíamos ter planejado uma revolução, entre um saque e outro, na verdade o que faziamos ali era uma pequena revolução diária. Grandes momentos tivemos ali, grande idéias, vivemos grandes pequenas coisas ao som do tac...tac da bolinha branca.
Para um bom jogo o ideal é uma bolinha leve, uma maderite apoiada num cavalete como mesa, boas raquetes coloridas, e prestar atenção no barulho da bolinha ao bater na mesa, pode te dizer muito esse barulho, tac tac tac tac....O bom mesmo é que você jogue com grandes amigos, desses que voc~e vai lembrar pra sempre, desses que voc~e vai guardar só as boas coisas, desses que mudam o mundo todos os dias.
Queria fazer uma homenagem ao Rodrigo, grande amigo que nos deixou. Eu adorava jogar ping pong com Rodrigo um cara que vai fazer muita falta não só para a família, para os amigos mas também para o mundo, porque ele queria mudar as coisas. Perdemos uma grande pessoa, hoje rezei, coisa que a muito não fazia.
sexta-feira, agosto 03, 2007
se rompe o silêncio, que passa a anteceder o silêncio.
Dizem que escrever é 90% transpiração e 10% inspiração, enfim, quer dizer que um escritor de verdade trabalha muito pra produzir. Eu não sou um desses, eu escrevo quando inspirado, e por falta de inspiração e uma vontade absurda de dizer algo eu reproduzo abaixo três dos meu escritus preferidos. O primeiro é um poeminha bastante despretensioso e apaixonado, acho que foi a primeira coisa que escrevi pra Fer, minha garota, meu amor. O segundo, é sofrido e rápido, o personagem cheira a conhaque e vive entre breves surtos. O terceiro é também rápido, também despretensioso, é meu primeiro texto, é meu preferido, talvez nem seja o melhor, mas é meu querido. Bom, isso é quase um desabafo novamente, escrevo em primeira pessoa, me coloco, meus textos não são um reflexo de mim simplesmente, é algo como uma mistura de desejos, de frustrações, de imaginário, de imaginação. Alguns podem até dizer algo de mim, podem... Esse aqui é meu divã, e eu minto muito nas minha análises. Em quase todos os textos há apenas um personagem, meu personagem é um moço, que se sente um velho por vezes, diferente de mim, é melancólico, por vezes toma vida própria. Em vários momentos eu não saberia dizer quando é o autor e quando é o personagem que fala. Sim! Eles se misturam. Não que eu viva todas as suas breves aventuras, mas por vezes ele pensa como eu, por vezes ele se sente como eu, e por vezes ele sente e vive por si mesmo. Esse moço que circula pelo finado cabeliasbar parece ter resolvido tomar conta de sua vida e me deixar. Tomara que ele venha tomar um café no Club del silêncio uma hora dessas, sinto sua falta. Por enquanto, vou me dedicar a minha dissertação, à ciência que já deu o ar de sua graça pelo cabeliasbar, e que passa a consumir esse autor que vive de inspiração, a transpiração vai ficar na academia entre doutos e clássicos. Fica ae então meus três textos preferidos. Quem sabe alguns momentos de inspiração não os deixe novamente como arquivos.
sem graça o café sem voce ao lado
Tranqüilo, pero
Cansado de
Nada entender,
De frases que surgem,
E falam, falam, falam...
A dor que na cabeça é frontal,
Ansioso por exames que virão.
De ciência querem saber
Ora, se de amor me perguntassem
Diria eu: - Fer.
Diria que ao seu lado
Gosto mais
do cigarro,
do café docemente amargo,
do calor
dos corpos suados
dos cabelos desalinhados
do céu, seja de brigadeiro
ou nublado,
vendo o iluminado,
ou apenas entediado.
Tranqüilo, pero
Cansado de
Nada entender,
De frases que surgem,
E falam, falam, falam...
A dor que na cabeça é frontal,
Ansioso por exames que virão.
De ciência querem saber
Ora, se de amor me perguntassem
Diria eu: - Fer.
Diria que ao seu lado
Gosto mais
do cigarro,
do café docemente amargo,
do calor
dos corpos suados
dos cabelos desalinhados
do céu, seja de brigadeiro
ou nublado,
vendo o iluminado,
ou apenas entediado.
então é assim o fundo do poço!
então é assim o fundo do poço!
Hoje é quinta-feira, desde domingo que eu digo: - vou começar a viver amanhã. Segunda é uma péssima pedida pra se começar qualquer coisa, quanto mais a viver!
- Amanhã eu falo com ela, resolvo todos aqueles afetos que me fazem beirar ao surto todos os dias!
Chego, primeira pessoa que vejo. Ela caminha em minha direção, segura, veste amarelo, linda. Um abraço carinhoso, é! Só carinhoso. Seguro a ar, solto, como se fosse mudar aquilo que eu já sabia desde o primeiro beijo. Nada pode ser tão perfeito assim, não existe a mulher da sua vida, não se pode gostar tanto de um beijo, não se pode gostar tanto de alguém sem pagar com dor e lágrimas.
O precipício! Me jogo, o corpo que sabe, vai deixar de ser, a alma que vaga imprecisa nos olhos arregalados quando surpresa, o sorriso que ilumina seu rosto e gela meu estomago. A consciência cega me impõe o bar, o balcão, o copo, sair de si é a melhor fuga. Inconseqüente!
O fundo deve estar perto, na queda não há tempo nem espaço, como quando se dança alucinado, o que sobra só aparece no fim do último acorde. O que sobrar de mim só vou saber quando sua voz não ecoar mais no vazio que me consome. O dia quente, longo, os instantes escorrem pelo meu corpo, salgados. Compulsivo, me prendo a café e delírios, perdido mas sem me preocupar.
Entro no bar, cigarro e cerveja. A noite acaba, indo pra casa, andando sozinho, de volta a rotina, os bons amigos, café e cigarros, agüentando a burocracia e esperando o relógio completar seus ciclos.
Bato no chão, enfim o fundo! A dor quase insuportável, me arrasto para o primeiro ponto claro, me encolho, lambo as feridas e choro, choro, choro...até ficar sem ar, desmaio. Durmo por horas e horas. Acordo, sinto uma mistura de calma e inquietude, quero andar. Caminho sem rumo, chapado, tenho desejos improváveis e saudades. Continuo sem me importar, me entrego ao sentir, para os covardes desejo a mediocridade de uma vida pronta, perdida no previsível. Prefiro minha solidão e minha calma.
Hoje é quinta-feira, desde domingo que eu digo: - vou começar a viver amanhã. Segunda é uma péssima pedida pra se começar qualquer coisa, quanto mais a viver!
- Amanhã eu falo com ela, resolvo todos aqueles afetos que me fazem beirar ao surto todos os dias!
Chego, primeira pessoa que vejo. Ela caminha em minha direção, segura, veste amarelo, linda. Um abraço carinhoso, é! Só carinhoso. Seguro a ar, solto, como se fosse mudar aquilo que eu já sabia desde o primeiro beijo. Nada pode ser tão perfeito assim, não existe a mulher da sua vida, não se pode gostar tanto de um beijo, não se pode gostar tanto de alguém sem pagar com dor e lágrimas.
O precipício! Me jogo, o corpo que sabe, vai deixar de ser, a alma que vaga imprecisa nos olhos arregalados quando surpresa, o sorriso que ilumina seu rosto e gela meu estomago. A consciência cega me impõe o bar, o balcão, o copo, sair de si é a melhor fuga. Inconseqüente!
O fundo deve estar perto, na queda não há tempo nem espaço, como quando se dança alucinado, o que sobra só aparece no fim do último acorde. O que sobrar de mim só vou saber quando sua voz não ecoar mais no vazio que me consome. O dia quente, longo, os instantes escorrem pelo meu corpo, salgados. Compulsivo, me prendo a café e delírios, perdido mas sem me preocupar.
Entro no bar, cigarro e cerveja. A noite acaba, indo pra casa, andando sozinho, de volta a rotina, os bons amigos, café e cigarros, agüentando a burocracia e esperando o relógio completar seus ciclos.
Bato no chão, enfim o fundo! A dor quase insuportável, me arrasto para o primeiro ponto claro, me encolho, lambo as feridas e choro, choro, choro...até ficar sem ar, desmaio. Durmo por horas e horas. Acordo, sinto uma mistura de calma e inquietude, quero andar. Caminho sem rumo, chapado, tenho desejos improváveis e saudades. Continuo sem me importar, me entrego ao sentir, para os covardes desejo a mediocridade de uma vida pronta, perdida no previsível. Prefiro minha solidão e minha calma.
velho sapato
velho sapato
Andava, pensando naquele aperto que sente no peito, os passos ecoando pela rua deserta era o único som que se ouvia na noite quente e úmida, chega ao ponto de ônibus, espera, acende um cigarro, o barulho da brasa que consome o papel atrai seu pensamento, ao fundo, outros passos se aproximam vagarosamente, não se da ao trabalho de olhar, percebe o corpo passando em suas costas e se distanciando, fica olhando para a fumaça do cigarro que dança como um fio de água que escorre tortuosa entre as pedras encostadas ao meio fio. A chuva que a pouco cessara ainda produzia alguns murmúrios nas folhas das árvores, o asfalto ainda brilhava e os pneus dos carros ainda levantavam uma névoa ao passar.
O ônibus se aproxima, ele solta o cigarro e fica observando até o momento que alcança o chão, ouve o som da brasa que se choca à água misturado ao barulho do motor que se aproxima, pisa na bituca, esfrega contra a calçada e ainda vê, antes dos degraus do ônibus que a porta aberta já permitia visualizar, a espuma daquela ponta de cigarro absorvendo aquele líquido que ia, aos poucos, sendo consumido pelo cimento.
Entra no coletivo, o piso metálico está escorregadio, ou seria a sola do seu velho sapato que a pouco esmagara aquela bituca? Diz boa noite ao cobrador, passa a roleta, observa rapidamente as poucas figuras tristes sentadas em seus mundos, procura um lugar para si, a vista pela janela mistura a visão das ruas vazias do itinerário com o reflexo do seu rosto, chega ao terminal, desce do ônibus, caminha vagarosamente até a saída.
Andando pelo centro velho da jovem cidade pensa no que vai dizer ao chegar, como de costume caminha olhando para baixo, observa as peripécias das gotas que são atiradas pelo movimento dos pés, na praça, ao lado da catedral, michês fazem o ponto à espera do próximo distinto senhor, chefe de família e pai de dois lindos filhos de olhos azuis, continua...uma fina garoa começa a cair, fecha o moletom, coloca o capuz, acende um cigarro, traga e pensa no que vai dizer.
Para na frente do prédio, olha para o interfone, desiste! Não! Vai apertar, a chuva começa a ficar mais forte, atravessa a rua e se abriga em baixo de um toldo, olha para o oitavo andar, luzes acesas, por instante pensa ter visto algum movimento, na sacada aparece um casal, conversam por alguns instantes e voltam, uma a uma as luzes começam a se apagar, exceto a do segundo quarto que se mantém por alguns minutos e então é apagada. O mundo cai a seu redor, a chuva cai a seu redor, se levanta agressivamente e acelerado toma um caminho qualquer e anda, não pensa, apenas anda. As peripécias das gotas atiradas pelo seu velho sapato, que até então lhe divertiam, são completamente abandonadas a sua própria sorte.
Andava, pensando naquele aperto que sente no peito, os passos ecoando pela rua deserta era o único som que se ouvia na noite quente e úmida, chega ao ponto de ônibus, espera, acende um cigarro, o barulho da brasa que consome o papel atrai seu pensamento, ao fundo, outros passos se aproximam vagarosamente, não se da ao trabalho de olhar, percebe o corpo passando em suas costas e se distanciando, fica olhando para a fumaça do cigarro que dança como um fio de água que escorre tortuosa entre as pedras encostadas ao meio fio. A chuva que a pouco cessara ainda produzia alguns murmúrios nas folhas das árvores, o asfalto ainda brilhava e os pneus dos carros ainda levantavam uma névoa ao passar.
O ônibus se aproxima, ele solta o cigarro e fica observando até o momento que alcança o chão, ouve o som da brasa que se choca à água misturado ao barulho do motor que se aproxima, pisa na bituca, esfrega contra a calçada e ainda vê, antes dos degraus do ônibus que a porta aberta já permitia visualizar, a espuma daquela ponta de cigarro absorvendo aquele líquido que ia, aos poucos, sendo consumido pelo cimento.
Entra no coletivo, o piso metálico está escorregadio, ou seria a sola do seu velho sapato que a pouco esmagara aquela bituca? Diz boa noite ao cobrador, passa a roleta, observa rapidamente as poucas figuras tristes sentadas em seus mundos, procura um lugar para si, a vista pela janela mistura a visão das ruas vazias do itinerário com o reflexo do seu rosto, chega ao terminal, desce do ônibus, caminha vagarosamente até a saída.
Andando pelo centro velho da jovem cidade pensa no que vai dizer ao chegar, como de costume caminha olhando para baixo, observa as peripécias das gotas que são atiradas pelo movimento dos pés, na praça, ao lado da catedral, michês fazem o ponto à espera do próximo distinto senhor, chefe de família e pai de dois lindos filhos de olhos azuis, continua...uma fina garoa começa a cair, fecha o moletom, coloca o capuz, acende um cigarro, traga e pensa no que vai dizer.
Para na frente do prédio, olha para o interfone, desiste! Não! Vai apertar, a chuva começa a ficar mais forte, atravessa a rua e se abriga em baixo de um toldo, olha para o oitavo andar, luzes acesas, por instante pensa ter visto algum movimento, na sacada aparece um casal, conversam por alguns instantes e voltam, uma a uma as luzes começam a se apagar, exceto a do segundo quarto que se mantém por alguns minutos e então é apagada. O mundo cai a seu redor, a chuva cai a seu redor, se levanta agressivamente e acelerado toma um caminho qualquer e anda, não pensa, apenas anda. As peripécias das gotas atiradas pelo seu velho sapato, que até então lhe divertiam, são completamente abandonadas a sua própria sorte.
quarta-feira, junho 27, 2007
saudade
para o Helder
Depois de ler o último post do Helder (muito além do horizonte - link ao lado) eu coloquei uma músiquinha aqui, meu novo vício é zeca pagodinho, então a primeira faixa que toca é essa ae:
Zeca Pagodinho - Não Sou Mais Disso
Eu não sei se ela fez feitiço
Macumba ou coisa assim
Eu só sei que eu estou bem com ela
E a vida é melhor pra mim
Eu deixei de ser pé-de-cana
Eu deixei de ser vagabundo
Aumentei minha fé em Cristo
Sou bem-quisto por todo mundo
Na hora de trabalhar
Levanto sem reclamar
E antes do galo cantar
Já vou
À noite volto pro lar
Pra tomar banho e jantar
Só tomo uma no bar
Bastou
Provei pra você que eu não sou mais disso
Não perco mais o meu compromisso
Não perco mais uma noite à-toa
Não traio e nem troco a minha patroa
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Esta letra foi retirada do site Letras.mus.br
Zeca Pagodinho - Não Sou Mais Disso
Eu não sei se ela fez feitiço
Macumba ou coisa assim
Eu só sei que eu estou bem com ela
E a vida é melhor pra mim
Eu deixei de ser pé-de-cana
Eu deixei de ser vagabundo
Aumentei minha fé em Cristo
Sou bem-quisto por todo mundo
Na hora de trabalhar
Levanto sem reclamar
E antes do galo cantar
Já vou
À noite volto pro lar
Pra tomar banho e jantar
Só tomo uma no bar
Bastou
Provei pra você que eu não sou mais disso
Não perco mais o meu compromisso
Não perco mais uma noite à-toa
Não traio e nem troco a minha patroa
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terça-feira, junho 26, 2007
acharam que fosse uma prostituta, ah...então tudo bem.
Há alguns anos atrás jovens de classe média alta ateiam fogo e matam um índio que dormia em um ponto de ônibus em Brasília. Os jovens dizem: pensávamos que era um mendigo, eis a justificativa. Agora no Rio de Janeiro, jovens de classe média alta espancam uma empregada doméstica e roubam sua bolsa: pensávamos que era uma prostituta, dizem os jovens como justificativa.
Sirlei saía de madrugada do apartamento onde mora e trabalha para ir a uma consulta médica, provavelmente passaria um bom tempo no interior de um ou dois ônibus até chegar ao posto de saúde, depois ficaria horas em uma fila esperando a tal consulta, depois provavelmente iria para a casa dos patrões arrumar quartos como os dos jovens que a espancaram. Esses, estavam no fim de uma balada, ou no meio dela, voltavam para casa de uma noite de diversão, provavelmente cada um iria chegar em sua casa, de carro é bom lembrar, iriam deitar em suas camas, provavelmente se levantar por volta de meio dia para uma outra Sirlei qualquer lhe arrumar a cama.
Vamos reduzir toda a situação ao seguinte: cinco jovens homens espancam uma mulher. Ae eu me pergunto, onde foi parar a tal honra masculina que sempre disse: não se bate em mulher nem com uma flor, ainda mais cinco homens. Mas não era uma mulher né, era uma prostituta. Hum, então prostituta não deve ser mulher. Assim como não era um índio lá em Brasília, era apenas um mendigo. Hum, então um mendigo pode ser incendiado sem culpa.
Do que estamos falando aqui afinal de contas, que valores norteiam as ações desses jovens? Será que esses jovens espancariam em cinco uma mulher qualquer que estivesse na mesma boate que eles saíram aquela noite? Eu não estou nem falando em espancar um homem em cinco, porque isso eu não tenho a menor dúvida que eles fariam, na boate ou em qualquer outro lugar. E aqueles jovens em Brasília, será que eles colocariam fogo em uma outra pessoa que não em um mendigo, ou mesmo um índio? Suponho que não, em nenhum dos casos.
Suponho que a questão seja a de quem é considerado pessoa e em última instância, quem é considerado gente. Há uma anedota na antropologia contada por Levi Strauss que diz mais ou menos o seguinte. Quando os espanhóis desembarcaram por aqui no nosso continente sul americano sua grande dúvida a respeito dos índios é se eles tinham alma, se tivessem eles poderiam ser considerados gente, para os índios a grande dúvida era se os espanhóis possuíam corpo, se o possuíssem eles poderiam ser considerados gente, então quando os índios matavam um espanhol eles ficavam esperando o seu corpo apodrecer para tirar a prova.
Bom, feito esse parênteses, voltemos aos casos contemporâneos, será que os jovens consideram aquela “prostituta” pessoa, gente? Bom, naturalmente acredito que eles estavam certos de que ela de qualquer forma possuía uma alma e um corpo. Então o que seria preciso para ser considerada merecedora de sua compaixão, para ser considerada uma pessoa? Grana? Status?
Me vem à cabeça o caso João Hélio, a mídia passou dias indignando a sociedade com tal atrocidade, àqueles marginais (aqueles animais) mataram cruelmente uma criança. A sociedade civil se comove e pede providências contra essa violência que assola nosso Brasil, então a polícia que nesse momento é obrigada a dar resposta, invade barracos à procura dos criminosos, que "obviamente" só poderiam estar nas favelas. Quantas vezes será que o barraco de qualquer Sirlei ja foi invadido pela polícia? Ela podia ter morrido de tanta pancada, sem a mínima chance de ser defender, e agora? Será que a sociedade civil vai às ruas e a mídia vai exigir severas punições? Quem é a sociedade civil afinal de contas? Será que não é aquele mesmo pai que diz que o filho cometeu um erro ao espancar a empregada, mas que ele é estudante e trabalhador e não merece ser preso, que o seu filho tem caráter e que não pode ser misturado a criminosos como os de tais e quais morros. Será que esse mesmo senhor não ficou indignado no caso João Hélio, será que ele não foi a alguma passeata pedir justiça e maior rigor da lei? Qual a diferença entre um erro e um crime bárbaro? É a classe?
Eu sei que o último dos cinco jovens se entregou acompanhado de dois advogados. Cada advogado deve ter ganhado para acompanhar o tal jovem mais do que tantas outras Sirleis ganham em um mês inteiro. Agora me digam o que aconteceria se cinco jovens moradores de um morro qualquer espancasse e roubasse a bolsa de qualquer uma das mães desses cinco jovens? Seriam cinco animais ( e não gente ) a espancar uma pessoa de bem, uma cidadã.
Mas nesse caso são cinco jovens estudantes ( gente, pessoa ) a espancar uma possível prostituta ( uma cadela, uma vaca, não gente). No fim das contas, certamente os jovens vão pagar uma indenização e prestar serviços comunitários, vão levar uma bronca de seus pais, que possivelmente vão dizer, tome juízo rapaz. Agora é uma questão de juízo. Milhares de outros jovens marginalizados vão ver tudo pela tv, vão pensar, ah se fosse comigo, ia apanhar tanto da polícia que ia ficar um mês sem levantar, e quando levantasse ia apanhar tanto do meu pai que ia ficar outro mês sem levantar, e depois quando saísse na rua ia apanhar tanto dos manos que ia ficar mais um mês sem levantar. Por outro lado a mensagem que tantos outros jovens de classe média e alta vão receber vai ser: eu posso tudo, posso espancar, posso roubar, porque papai paga a conta.
Putz, vou confessar uma coisa, eu posso até ta sendo sádico, mas eu queria é ver esses moleques na cadeia, e o agente penitenciário falando: ae galera, esses aqui são os playboy que espancaram aquela moça la no ponto de ônibus ta ligado? hein, imaginem só. Cada preso pensando, podia ser minha mulher, minha mãe, minha irmã, porque para eles, prostituta ou não, certamente a Sirley seria gente, e gente fina aliás.
Sirlei saía de madrugada do apartamento onde mora e trabalha para ir a uma consulta médica, provavelmente passaria um bom tempo no interior de um ou dois ônibus até chegar ao posto de saúde, depois ficaria horas em uma fila esperando a tal consulta, depois provavelmente iria para a casa dos patrões arrumar quartos como os dos jovens que a espancaram. Esses, estavam no fim de uma balada, ou no meio dela, voltavam para casa de uma noite de diversão, provavelmente cada um iria chegar em sua casa, de carro é bom lembrar, iriam deitar em suas camas, provavelmente se levantar por volta de meio dia para uma outra Sirlei qualquer lhe arrumar a cama.
Vamos reduzir toda a situação ao seguinte: cinco jovens homens espancam uma mulher. Ae eu me pergunto, onde foi parar a tal honra masculina que sempre disse: não se bate em mulher nem com uma flor, ainda mais cinco homens. Mas não era uma mulher né, era uma prostituta. Hum, então prostituta não deve ser mulher. Assim como não era um índio lá em Brasília, era apenas um mendigo. Hum, então um mendigo pode ser incendiado sem culpa.
Do que estamos falando aqui afinal de contas, que valores norteiam as ações desses jovens? Será que esses jovens espancariam em cinco uma mulher qualquer que estivesse na mesma boate que eles saíram aquela noite? Eu não estou nem falando em espancar um homem em cinco, porque isso eu não tenho a menor dúvida que eles fariam, na boate ou em qualquer outro lugar. E aqueles jovens em Brasília, será que eles colocariam fogo em uma outra pessoa que não em um mendigo, ou mesmo um índio? Suponho que não, em nenhum dos casos.
Suponho que a questão seja a de quem é considerado pessoa e em última instância, quem é considerado gente. Há uma anedota na antropologia contada por Levi Strauss que diz mais ou menos o seguinte. Quando os espanhóis desembarcaram por aqui no nosso continente sul americano sua grande dúvida a respeito dos índios é se eles tinham alma, se tivessem eles poderiam ser considerados gente, para os índios a grande dúvida era se os espanhóis possuíam corpo, se o possuíssem eles poderiam ser considerados gente, então quando os índios matavam um espanhol eles ficavam esperando o seu corpo apodrecer para tirar a prova.
Bom, feito esse parênteses, voltemos aos casos contemporâneos, será que os jovens consideram aquela “prostituta” pessoa, gente? Bom, naturalmente acredito que eles estavam certos de que ela de qualquer forma possuía uma alma e um corpo. Então o que seria preciso para ser considerada merecedora de sua compaixão, para ser considerada uma pessoa? Grana? Status?
Me vem à cabeça o caso João Hélio, a mídia passou dias indignando a sociedade com tal atrocidade, àqueles marginais (aqueles animais) mataram cruelmente uma criança. A sociedade civil se comove e pede providências contra essa violência que assola nosso Brasil, então a polícia que nesse momento é obrigada a dar resposta, invade barracos à procura dos criminosos, que "obviamente" só poderiam estar nas favelas. Quantas vezes será que o barraco de qualquer Sirlei ja foi invadido pela polícia? Ela podia ter morrido de tanta pancada, sem a mínima chance de ser defender, e agora? Será que a sociedade civil vai às ruas e a mídia vai exigir severas punições? Quem é a sociedade civil afinal de contas? Será que não é aquele mesmo pai que diz que o filho cometeu um erro ao espancar a empregada, mas que ele é estudante e trabalhador e não merece ser preso, que o seu filho tem caráter e que não pode ser misturado a criminosos como os de tais e quais morros. Será que esse mesmo senhor não ficou indignado no caso João Hélio, será que ele não foi a alguma passeata pedir justiça e maior rigor da lei? Qual a diferença entre um erro e um crime bárbaro? É a classe?
Eu sei que o último dos cinco jovens se entregou acompanhado de dois advogados. Cada advogado deve ter ganhado para acompanhar o tal jovem mais do que tantas outras Sirleis ganham em um mês inteiro. Agora me digam o que aconteceria se cinco jovens moradores de um morro qualquer espancasse e roubasse a bolsa de qualquer uma das mães desses cinco jovens? Seriam cinco animais ( e não gente ) a espancar uma pessoa de bem, uma cidadã.
Mas nesse caso são cinco jovens estudantes ( gente, pessoa ) a espancar uma possível prostituta ( uma cadela, uma vaca, não gente). No fim das contas, certamente os jovens vão pagar uma indenização e prestar serviços comunitários, vão levar uma bronca de seus pais, que possivelmente vão dizer, tome juízo rapaz. Agora é uma questão de juízo. Milhares de outros jovens marginalizados vão ver tudo pela tv, vão pensar, ah se fosse comigo, ia apanhar tanto da polícia que ia ficar um mês sem levantar, e quando levantasse ia apanhar tanto do meu pai que ia ficar outro mês sem levantar, e depois quando saísse na rua ia apanhar tanto dos manos que ia ficar mais um mês sem levantar. Por outro lado a mensagem que tantos outros jovens de classe média e alta vão receber vai ser: eu posso tudo, posso espancar, posso roubar, porque papai paga a conta.
Putz, vou confessar uma coisa, eu posso até ta sendo sádico, mas eu queria é ver esses moleques na cadeia, e o agente penitenciário falando: ae galera, esses aqui são os playboy que espancaram aquela moça la no ponto de ônibus ta ligado? hein, imaginem só. Cada preso pensando, podia ser minha mulher, minha mãe, minha irmã, porque para eles, prostituta ou não, certamente a Sirley seria gente, e gente fina aliás.
segunda-feira, junho 25, 2007
Em meio ao ar quente do deserto ticano, ja arrastando suas botas, o cowboy avista algo entre um suspiro e o quase desfalecer. Aperta os olhos para conseguir enxergar, parece um velho posto de gasolina, no letreiro diz: Club Del Silêncio. Na porta um homem com um largo chapéu que esconde sua face, o som forte do vento corta o silêncio daquele nada. nada além do Club Del Silêncio.
Emilie Simon - Alicia
Quand Alicia compose un bouquet des roses
Le monde est suspendu
Á ses lèvres et pour cause
Elles sont d'un rose
Inattendu
Quand Alicia s'endort, une plante carnivore
Veille sur son sommeil
Mais dans les bras de lierre d'Alicia
On ne se réveille pas
Alicia dort
Alicia dort
Un bouquet de violettes
Des serpents à sonnettes
Dansent dans sa tête
Mon doux venin
Une odeur de jasmin
Sur les joues pâles
D'une fille végétale
Quand Alicia compose
Un bouquet des roses
Le monde est suspendu
Mais dans les bras de lierre d'Alicia
On ne se réveille pas
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Esta letra foi retirada do site Letras.mus.br
domingo, junho 24, 2007
quinta-feira, junho 21, 2007
revista eletrônica Muro
essa é capa da sexta edição da revista eletrônica muro, para quem conhece, nessa edição umas das colaboradoras é a Luana que comenta dois blogs e um fotolog, um dos blogs é o da Adriana (passou algum tempo aqui na terrinha) e o fotolog da Paula, que ainda pode ser vista por aqui (se você der sorte)...grandes figuras, é preciso comentar também que o cabeliasbar só existe porque um certo dia a Paula postou um texto meu no Ground Control (acho que isso nem ela sabe), enfim algumas pessoas falaram bem e acabei criando isso aqui, que vai meio mal das pernas mas vai.
Vale conferir a revista (to aqui falando dessas figuras, mas a revista tem muito mais), vejam vocês mesmos http://www.revistamuro.kit.net/index.htm
quarta-feira, junho 20, 2007
Vá lá fora!
Olhe para o lado,
veja mais um fudido
pela vida espancado: caiu, levantou,
quase sempre quase derrotado.
Olhe para o outro lado
Veja mais outro fudido,
Pela cachaça quase corrompido, ou quase salvo.
Veja bem ao seu lado,
e consiga continuar pasmado
ou então
feche seus punhos feito um Black Panthers.
Olhe no olho de outro fardado porco
e tente continuar se sentido branco,
não falo de pele, mas de olho,
não trato de corpo, mas de orgulho.
Continue andando
Olhando para os lados,
E veja outro fudido, pela calçada espalhado,
e tente ignorar o rap,
tente levantar a cabeça e olhar ao seu lado,
continue ignorando os fudidos pelas ruas espalhados
e nunca mais pare de olhar para tras,
esperando pelo próximo assalto.
Baixe a cabeça quando cruzar mais um fudido revoltado,
e reze para seus santos brancos protegerem sua alva alma.
Continue ignorando aos fudidos que pelas ruas se espalham,
compre cercas e arames farpados,
erga seu muro,
se feche no seu mundo.
E então, avalanches de fudidos vão romper as grades,
vão escalar prédios, vão se rasgar nos seus arames farpados,
seus muros pesados de sangue vão romper,
porcos fardados vão disparar a esmo,
reze para sua alva alma não ser alvejada.
Continue ignorando os fudidos pelas ruas espalhados
E estoque terços,
Porque estoques vão bater à sua porta.
toc toc toc...
Olhe para o lado,
veja mais um fudido
pela vida espancado: caiu, levantou,
quase sempre quase derrotado.
Olhe para o outro lado
Veja mais outro fudido,
Pela cachaça quase corrompido, ou quase salvo.
Veja bem ao seu lado,
e consiga continuar pasmado
ou então
feche seus punhos feito um Black Panthers.
Olhe no olho de outro fardado porco
e tente continuar se sentido branco,
não falo de pele, mas de olho,
não trato de corpo, mas de orgulho.
Continue andando
Olhando para os lados,
E veja outro fudido, pela calçada espalhado,
e tente ignorar o rap,
tente levantar a cabeça e olhar ao seu lado,
continue ignorando os fudidos pelas ruas espalhados
e nunca mais pare de olhar para tras,
esperando pelo próximo assalto.
Baixe a cabeça quando cruzar mais um fudido revoltado,
e reze para seus santos brancos protegerem sua alva alma.
Continue ignorando aos fudidos que pelas ruas se espalham,
compre cercas e arames farpados,
erga seu muro,
se feche no seu mundo.
E então, avalanches de fudidos vão romper as grades,
vão escalar prédios, vão se rasgar nos seus arames farpados,
seus muros pesados de sangue vão romper,
porcos fardados vão disparar a esmo,
reze para sua alva alma não ser alvejada.
Continue ignorando os fudidos pelas ruas espalhados
E estoque terços,
Porque estoques vão bater à sua porta.
toc toc toc...
segunda-feira, junho 18, 2007
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